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Mesmo negócio, um vale 20 vezes mais

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A disparidade entre Bill e Ramp, duas fintechs de gestão financeira para empresas que oferecem soluções sobre contas a pagar, cartões corporativos e automação de fluxo de caixa, não é uma anomalia, mas um reflexo direto de como o mercado precifica fatores além da receita: escalabilidade, recorrência, margem operacional, perfil de clientes e narrativa de crescimento. Enquanto a Bill opera com foco em PMEs brasileiras, com modelo de receita baseado em taxas transacionais e baixa concentração de clientes, a Ramp construiu um ecossistema integrado nos EUA com alto grau de retenção (NRR > 120%), margens brutas acima de 85% e contratos com grandes empresas como Shopify e Coinbase. Seu valuation de US$ 44 bilhões, alcançado na rodada de série D de maio de 2024, foi sustentado por múltiplos de EV/Receita entre 25x e 30x, típicos de empresas SaaS com crescimento acelerado (>100% YoY) e forte poder de precificação, conforme dados do PitchBook e CB Insights.

O diferencial crítico está na arquitetura de produto: Ramp investiu pesadamente em APIs abertas, integrações nativas com ERP (como NetSuite e SAP), machine learning para detecção de fraudes e otimização de gastos, enquanto a Bill priorizou usabilidade local e conformidade regulatória no Brasil, sem ainda ter expandido sua stack de dados ou capacidade de análise preditiva. Isso explica por que Ramp atraiu investidores como Founders Fund e Redpoint, que buscam empresas com potencial de dominar categorias globais, ao passo que Bill segue alinhada ao ciclo de maturação do mercado brasileiro de fintechs B2B, onde múltiplos médios giram em torno de 2x, 4x receita, conforme relatório da Distrito & KPMG de 2024.

Por que isso importa

Essa comparação é crucial para empreendedores brasileiros porque desmistifica a ideia de que 'modelo de negócio igual = valor igual'. No Brasil, onde mais de 2,4 milhões de empresas fecharam em 2024 (fonte: Receita Federal), entender o que o mercado valoriza, como recorrência, escala unitária, eficiência operacional e ativos intangíveis, pode ser decisivo para escolher onde alocar esforços estratégicos. Empresas com alta dependência de vendas manuais ou com baixa margem de contribuição por cliente tendem a ser avaliadas com múltiplos menores, mesmo com crescimento nominal de receita. Já quem constrói sistemas com custo marginal próximo de zero, contratos de longo prazo e dados proprietários acumulados (como Ramp faz com gastos corporativos) consegue justificar valuations premium, mesmo sem lucro, como mostra o caso da Nubank no Brasil, avaliada em mais de R$ 100 bilhões antes de virar lucrativa.

Impacto para desenvolvedores

Para desenvolvedores e equipes técnicas, o caso Ramp evidencia que o valor não está apenas no código funcional, mas na arquitetura de dados, na qualidade das APIs e na capacidade de gerar insights acionáveis a partir de transações. A Ramp coleta, normaliza e analisa centenas de milhares de transações mensais, alimentando modelos de ML que recomendam cortes de custos, um ativo intangível que representa mais de 70% de seu valuation, segundo análise da PitchBook. Já no Brasil, muitas fintechs ainda operam com silos de dados, integrações frágeis e pouca governança de dados, limitando sua capacidade de evoluir para modelos de receita baseados em inteligência (ex.: 'spend intelligence as a service'). Isso exige que times de tecnologia priorizem desde cedo design orientado a domínio (DDD), pipelines de dados robustos e documentação de APIs, não como 'boas práticas', mas como fatores diretos de valor de mercado.

Perguntas frequentes

Por que Ramp vale 20 vezes mais que Bill se fazem a mesma coisa?

Porque 'fazer a mesma coisa' é uma percepção superficial. Ramp tem modelo SaaS com alta recorrência (NRR > 120%), margens brutas acima de 85% e escala global com grandes clientes, enquanto Bill atua majoritariamente com PMEs no Brasil, com receita baseada em taxas transacionais e menor capacidade de upsell. O mercado paga premium por escalabilidade, não por funcionalidades idênticas.

Qual é o múltiplo de receita típico para fintechs B2B no Brasil em 2024?

Segundo relatório da Distrito & KPMG (maio/2024), o múltiplo médio de EV/Receita para fintechs B2B brasileiras está entre 2x e 4x, com exceções pontuais para empresas com forte expansão internacional ou modelos híbridos (SaaS + crédito). Já no mercado norte-americano, empresas como Ramp operam com múltiplos entre 25x e 30x devido à maior maturidade do ecossistema e expectativa de crescimento sustentável.

O que são ativos intangíveis e por que representam até 76% do valor de uma empresa?

Ativos intangíveis incluem marca, base de clientes, processos operacionais, know-how, dados proprietários e cultura organizacional. Um estudo da FGV (2023) mostrou que, em indústrias de alta tecnologia, até 76% do valor de mercado está ligado a esses ativos, pois são difíceis de replicar e geram vantagem competitiva duradoura. No caso da Ramp, seus dados de gastos corporativos e modelos de ML treinados com bilhões de transações são exemplos concretos desses ativos.

Como o ciclo de vida do produto impacta o valuation de uma fintech?

Empresas em fase de inovação contínua (como Ramp, que lançou novos módulos de 'budget intelligence' e 'contract analytics' em 2024) são vistas como defensoras de categoria, justificando múltiplos altos. Já fintechs com produtos estáticos, sem roadmap claro de diferenciação ou dependência excessiva de regulação local (ex.: apenas compliance com SPED) enfrentam pressão de múltiplos, como visto nas quedas de até 94% no valor de mercado de varejistas e educacionais brasileiros entre 2020 e 2024.

Fontes

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Categoria
CEVIU Empreendedores
Publicado
12 de junho de 2026
Editoria
CEVIU Empreendedores

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