O Declínio da Pesquisa Corporativa
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A aquisição de uma participação superior a US$ 1,5 bilhão pela Elliott Investment Management na HPE, iniciada em abril de 2025, já rendeu um assento no conselho e a presidência de um comitê estratégico, sem que nenhuma declaração pública mencionasse pesquisa, inovação ou horizonte temporal além do próximo trimestre. A pressão se concretizou: os gastos com P&D caíram de US$ 2,3 bilhões (2023) para US$ 2,2 bilhões (2024), após um fundo de US$ 2,0 bilhões em 2022. Em dezembro de 2025, a CFO da HPE falou em 'gastos disciplinados' e 'gestão contínua de custos estruturais', linguagem que, no jargão corporativo, é sinônimo de desmonte silencioso de laboratórios de longo prazo. O mecanismo técnico que permite isso é contábil: nos EUA, não há exigência de separar 'pesquisa' (hipóteses, experimentação, falhas) de 'desenvolvimento' (protótipos, testes, lançamentos). Enquanto as IFRS obrigam essa distinção, o GAAP americano permite que cortes atinjam só a primeira, a mais essencial para descobertas futuras, sem alterar a linha de P&D nos balanços.
No Brasil, o cenário é ainda mais frágil: o investimento em P&D ficou em 1,19% do PIB em 2023, menos da metade do que a Alemanha (3,11%) e menos de um quinto do que Israel (6,35%). Os orçamentos do CNPq e da Capes foram reduzidos mais de 7% em termos reais em 2026, enquanto empresas locais seguem replicando o modelo de corte rápido sob pressão acionária, mesmo sem terem laboratórios próprios robustos para começar. A consequência não é só perda de patentes, mas de capacidade de absorver inovação aberta: sem base científica interna, empresas viram meras integradoras de tecnologia alheia, com margens cada vez menores e dependência crescente de fornecedores estrangeiros.
Por que isso importa
Para TI corporativa, esse declínio não é um problema de 'laboratório distante': ele afeta diretamente arquitetura, segurança e governança. Soluções de nuvem, IA e cibersegurança cada vez mais dependem de avanços em criptografia pós-quântica, modelos de linguagem especializados e sistemas autônomos, todos frutos de pesquisa exploratória financiada há anos. Quando empresas como a HPE reduzem essa camada, o ecossistema inteiro passa a depender de poucos players globais (Microsoft, Google, Apple), aumentando riscos de vendor lock-in, custos operacionais e vulnerabilidades estruturais. Para CIOs e arquitetos, a pergunta deixou de ser 'quanto gastamos em P&D?' e virou 'como garantimos acesso contínuo a inovações que não controlamos, e que estão sendo produzidas por quem não tem interesse em compartilhá-las?'
Perguntas frequentes
Por que a fusão entre pesquisa e desenvolvimento nos relatórios financeiros é um problema real para empresas brasileiras?
Porque permite cortes seletivos: a pesquisa (exploratória, de longo prazo) pode ser eliminada sem alterar a linha de P&D no balanço, enquanto o desenvolvimento (de produtos imediatos) permanece. No Brasil, onde o setor privado já investe pouco, apenas 0,6% do PIB em P&D , , essa prática agrava a dependência de tecnologia importada e reduz a capacidade de construir soluções soberanas em nuvem, IA e segurança.
O que muda na governança de TI quando a empresa corta pesquisa de longo prazo?
Muda o ciclo de decisão: sem capacidade interna de antecipar ameaças ou tendências (como IA generativa aplicada a compliance ou criptografia pós-quântica), a área de TI passa a reagir, não liderar. Isso força adoções apressadas de soluções externas, com impacto direto em custos, riscos de conformidade e tempo de resposta a incidentes.
Como a 'inovação aberta' pode compensar a queda na pesquisa corporativa?
Não compensa, apenas mitiga. Inovação aberta exige capacidade de avaliar, adaptar e integrar conhecimento externo. Sem equipes técnicas com experiência em pesquisa básica, empresas viram meras consumidoras de APIs e SDKs, perdendo controle sobre arquitetura, atualizações e customização. Em 2026, esse modelo já mostra limites em setores regulados como finanças e saúde.
Fontes
- philmckinney.substack.comfonte original
- Categoria
- CEVIU TI
- Publicado
- 11 de março de 2026
- Editoria
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