CEVIU Logo
Voltar

Ações da Wise despencam após investigação de lavagem de dinheiro na Bélgica

Aprofundamento CEVIU

Aprofundamento

A Wise não está sob investigação pontual na Bélgica, está sob escrutínio estrutural há anos, e o inquérito de Bruxelas é o desfecho mais grave de uma série contínua de falhas em compliance. Diferente do caso isolado do funcionário do Google (2026-05-28), que envolveu conduta individual e dados internos, ou do bloqueio judicial da Circle contra a Zama (2026-06-01), que foi uma medida cautelar em disputa civil, a apuração belga é criminal, com base em centenas de pedidos de auxílio transfronteiriço de 30 países europeus. O valor suspeito, mais de €500 milhões, supera em 10 vezes o montante congelado no caso da Zama e equivale a quase metade do lucro líquido anual da Wise em 2025.

O padrão é claro: desde 2022, a empresa acumula sanções por lacunas repetidas, falta de comprovante de endereço para clientes (Banco Nacional da Bélgica), transferências para listas de sanções russas (OFSI/Reino Unido), taxas enganosas (acordo nos EUA por US$45 mil + US$450 mil em reparação) e agora, em 2025, um acordo de US$4,2 milhões com seis estados norte-americanos por falhas sistêmicas no programa AML. A mudança não está no fato de ser investigada, mas na escala: pela primeira vez, autoridades afirmam que há 'indicações de não conformidade' com a legislação antilavagem, não apenas erros operacionais, mas riscos estruturais no modelo de crescimento acelerado sem reforço proporcional nas equipes de compliance, mesmo com um terço da força de trabalho dedicado a isso.

O que mudou

Em julho de 2025, a Wise pagou US$4,2 milhões para resolver acusações de falhas no programa AML nos EUA, mas mantinha sua licença belga intacta e afirmava ter corrigido os processos. Agora, em junho de 2026, o Ministério Público de Bruxelas confirma que a investigação, iniciada em 2025, está em fase avançada e próxima da conclusão, com foco em 'falta de identificação adequada de clientes e suas atividades'. Ou seja: o que era um problema de execução (relatórios tardios, revisão ausente) virou um problema de design, a própria arquitetura de onboarding e monitoramento de transações está sob suspeita. A transferência da listagem primária para a Nasdaq em maio de 2026, que deveria sinalizar maturidade regulatória, ocorreu justamente no momento em que o inquérito belga atingia seu ponto crítico.

Por que isso importa

A queda de 10% a 20% nas ações não é só sobre risco legal, é sobre confiança no modelo de fintechs de câmbio e pagamentos transfronteiriços. Se a Wise, com 80 licenças e 19 milhões de clientes, falha sistemicamente em identificar clientes de alto risco, o mercado começa a questionar se o crescimento exponencial dessas plataformas foi construído sobre controles de compliance que são mais marketing do que operação real. Para bancos digitais, neobancos e players de open finance, o caso serve como alerta: a regulação antilavagem deixou de ser um custo operacional e virou um critério de sustentabilidade econômica. Uma única investigação criminal pode invalidar anos de investimento em escala.

Linha do tempo

  1. Banco Nacional da Bélgica identifica falhas na verificação de endereço de clientes da Wise Europe

  2. OFSI do Reino Unido revela transferência de £250 para empresa ligada a sanções russas

  3. Autoridade de Abu Dhabi aplica multa de US$360 mil por falhas em controles AML

  4. Wise paga US$4,2 milhões para resolver acusações de falhas sistêmicas no programa AML nos EUA

  5. Wise transfere listagem primária para a Nasdaq, mantendo secundária em Londres

  6. Ministério Público de Bruxelas confirma investigação criminal por lavagem de dinheiro envolvendo mais de €500 milhões

Perguntas frequentes

A Wise está sendo acusada de lavagem de dinheiro ou apenas investigada?

A empresa está sob investigação criminal, não há acusações formais ainda. O Ministério Público de Bruxelas confirmou que o inquérito está em fase avançada, mas não divulgou indiciamentos. A Wise nega qualquer conduta ilícita intencional e afirma estar cooperando.

Por que a Bélgica lidera essa investigação, se a Wise é britânica?

A Wise Europe NV, entidade responsável pelas operações na UE, tem sede legal em Bruxelas e é regulada pelo Banco Nacional da Bélgica. Desde 2022, autoridades belgas já haviam identificado deficiências no controle de identidade de clientes, o que abriu espaço para a investigação atual.

Essa investigação afeta os clientes brasileiros da Wise?

Não há impacto imediato na disponibilidade dos serviços para usuários no Brasil, pois as operações locais são feitas via Wise Ltd (Reino Unido), não pela entidade belga. Mas a reputação regulatória pode influenciar futuras aprovações junto ao Banco Central do Brasil, especialmente em projetos de open finance.

Como isso se compara às multas anteriores da Wise?

As multas anteriores (US$4,2 mi nos EUA, £360 mil em Abu Dhabi, £250 em sanções russas) foram administrativas ou civis. Esta é a primeira investigação criminal com potencial para sanções penais contra a entidade jurídica, além de risco de suspensão ou revogação da licença belga, o que afetaria toda a operação na UE.

Fontes

Avalie este artigo:
Compartilhar:
Categoria
CEVIU Fintech
Publicado
04 de junho de 2026
Editoria
CEVIU Fintech

Quer receber mais sobre CEVIU Fintech?

Conteúdo curado diariamente, direto no seu e-mail.

Conteúdo curado diariamenteDiversas categoriasCancele quando quiser