O estúdio Oneplus e a filosofia do branding como escavação cultural
Aprofundamento CEVIU
Aprofundamento
O estúdio Oneplus não desenha marcas, escava-as. Sua filosofia parte de um pressuposto raro no mercado brasileiro: que o branding eficaz nasce da restituição, não da invenção. Em vez de aplicar tendências visuais ou templates prontos, a equipe mergulha em arquivos históricos, linguagem regional, técnicas artesanais e até modos de consumo locais para extrair elementos que já existem, mas estavam invisibilizados. É um processo mais próximo do antropólogo do que do designer gráfico tradicional, e isso se reflete em identidades com peso narrativo, como a recente reestruturação da Alemagna pela Ey Studio, que resgatou tipografias pós-guerra sem cair no pastiche nostálgico.
Essa abordagem também dialoga com o trabalho da Decimal para a CCAI: lá, a escolha deliberada de evitar a estética 'fria' da IA corporativa foi uma escavação ética, não apenas visual. Da mesma forma, Tom Chung constrói seu processo pessoal a partir dos limites reais de materiais e produção, outro tipo de escavação, agora técnica e material. O que une esses casos não é o estilo, mas a recusa em começar do zero.
O que mudou
A cobertura anterior mostrava práticas isoladas de escavação cultural, Ey Studio no modernismo italiano, Decimal na ética da IA, Koto na vida cotidiana de West Palm Beach. A novidade do Oneplus é sistematizar essa postura como método explícito, não como intuição ou acaso. Enquanto os outros projetos revelaram camadas por necessidade contextual, o estúdio milanês nomeia o processo, ensina-o e o aplica como protocolo, transformando uma atitude criativa em disciplina replicável.
Por que isso importa
Para designers brasileiros, essa virada é estratégica: a maioria dos rebrandings locais ainda prioriza velocidade, escalabilidade e aderência a benchmarks globais. Escavar exige tempo, orçamento para pesquisa de campo e coragem para entregar algo que não se encaixa em moodboards de Dribbble. Mas é justamente essa profundidade que gera reconhecimento duradouro, como no caso da Instrument, que sustenta parcerias com Spotify e Google com sistemas de design interconectados, não com campanhas pontuais. Branding como escavação não vende mais rápido. Vende com menos ruído, e por mais tempo.
Linha do tempo
Instrument define sua fórmula com prontidão técnica e bravura criativa
Decimal lança identidade da CCAI com escavação ética sobre IA
Koto desenvolve identidade do Norton Museum com escavação no cotidiano local
Ey Studio aplica escavação no modernismo pós-guerra para a Alemagna
Tom Chung formaliza escavação material como núcleo de seu processo pessoal
Oneplus sistematiza a escavação cultural como método de branding
Perguntas frequentes
Escavação cultural é só para marcas com história antiga?
Não. A Alemagna tem quase um século, mas a CCAI é uma coalizão nova. Escavar nesse caso significou investigar o imaginário coletivo sobre IA, medos, esperanças, representações visuais dominantes, e contrapor uma identidade que falasse em nome da comunidade, não do tecnocrata.
Como isso se diferencia de 'pesquisa de mercado' tradicional?
Pesquisa de mercado busca o que o público quer consumir. Escavação cultural busca o que já existe no tecido simbólico da marca ou do território, seja um padrão de azulejo em Lisboa, um ritmo de fala no Nordeste ou um gesto de ofício em uma fábrica. É antropologia aplicada, não análise de dados comportamentais.
Designers brasileiros podem aplicar esse método mesmo sem orçamento para viagens ou arquivos físicos?
Sim. A escavação começa local: registros em câmeras de celular, entrevistas com fundadores ou funcionários mais antigos, varredura de jornais regionais digitais, análise de embalagens antigas em brechós. O que importa é a intenção, e a disciplina de não pular para o sketch antes de ter pelo menos três camadas de contexto.
Existe risco de romantizar ou apropriar-se de culturas alheias nesse processo?
Há risco sim, e é por isso que a escavação precisa ser ética. A Decimal evitou apropriação ao envolver membros da CCAI desde a concepção da identidade. O Oneplus, segundo entrevista publicada em junho, só trabalha com parceiros locais em cada projeto, como curadores, historiadores ou artesãos. Sem colaboração real, vira turismo visual.
Fontes
- itsnicethat.comfonte original
- Categoria
- CEVIU Design
- Publicado
- 04 de junho de 2026
- Editoria
- CEVIU Design
