CEVIU Logo
Voltar

"IA Não Está Matando a Criatividade": Por que os Cargos Rígidos são a Real Ameaça às Agências Criativas

Aprofundamento CEVIU

Aprofundamento

A IA não está matando a criatividade, ela está expondo o que já estava podre: estruturas de poder que valorizam cargo mais que contribuição, experiência mais que curiosidade, e silêncio mais que voz. Dados do Censo de Diversidade das Agências Brasileiras (2024) mostram que profissionais trans ocupam apenas 0,64% dos cargos de gerência e zero na diretoria, um retrato claro de como hierarquias invisíveis funcionam como filtros de talento. Enquanto isso, 72,2% dos profissionais acreditam que a experiência de quem tem mais tempo no mercado é essencial para a evolução da agência, mas 32% sofrem de burnout e seis em cada dez têm menos de dois anos de casa. A 'ignorância estrutural' citada na notícia não é abstrata: é o chefe que não vê o estresse do time porque o relatório de produtividade está verde, é o processo de contratação que descarta currículos com mais de 15 anos de experiência, é a reunião de briefing onde só quem tem título de diretor fala.

O Cannes Lions 2026 exigindo declaração obrigatória do uso de IA nas inscrições mostra que a indústria já entendeu: o problema não é se a máquina gera ideia, mas quem decide o que vale ser dito, e quem fica fora dessa decisão. As agências independentes que crescem no Brasil não fazem isso por terem melhor tecnologia, mas por terem menos camadas entre o estagiário que teve uma ideia às 2h da manhã e o cliente que vai ver a campanha no ar.

Por que isso importa

Porque a rotatividade nas agências não é um sintoma de crise de talento, mas de falha de design organizacional. Quando 96% dos líderes esperam impacto radical da IA nos próximos cinco anos, mas só 20% veem nela um acelerador de criatividade, o problema não está no prompt, está na cultura que treina as pessoas a pedir permissão antes de experimentar. Um ambiente onde o estagiário pode testar uma ferramenta nova sem aprovação prévia, onde o feedback sobre um conceito vem de quem está na linha de frente do atendimento, não só do diretor de arte, é o mesmo ambiente que absorve IA com inteligência, não com pânico. A acessibilidade no processo criativo, de participação, de voz, de progressão, é o primeiro sistema de design que precisa ser refeito.

Perguntas frequentes

A IA realmente está substituindo cargos criativos nas agências?

Não há dados que mostrem substituição em massa de cargos criativos pela IA. O que acontece é outra coisa: 82% das agências priorizam a IA para eficiência operacional, cortar tempo de produção, automatizar relatórios, gerar variações de peças , , não para criar conceitos originais. O risco real é que, ao otimizar o que é mensurável, as agências deixem de investir no que não é: escuta atenta, empatia contextual, julgamento ético.

Por que o etarismo é tão grave nas agências, se experiência deveria ser valorizada?

Porque o etarismo nas agências opera de forma invertida: jovens são cobrados por maturidade estratégica, mas impedidos de tomar decisões; profissionais mais velhos são vistos como 'desatualizados', mesmo quando dominam linguagens emergentes. O Censo do ODC mostra que a representação de profissionais trans cai de 2% no corpo geral para 0% na diretoria, o mesmo padrão se repete com idade, raça e classe, mas sem métricas oficiais, fica invisível.

O que uma agência pode fazer hoje para combater essa 'ignorância estrutural'?

Começar com pequenos desenhos de processo: revisar quem participa das reuniões de conceito (e quem convida), auditar os critérios de promoção (exigem certificação ou demonstram impacto real?), testar rodízios de liderança em projetos pontuais. Não é sobre 'incluir', é sobre remover barreiras que foram construídas como 'jeito certo de fazer'. Programas de bem-estar psicológico ajudam, mas não resolvem se o horário de trabalho ainda pressupõe que todo mundo tem uma babá, um carro e um plano de saúde privado.

Por que as agências independentes estão crescendo no Brasil?

Elas não crescem apesar da crise, mas porque operam com menos camadas de burocracia e mais proximidade com o cliente, o que permite testar ideias rapidamente, dar visibilidade a vozes novas e ajustar modelos de contratação (como CLT real, com horas extras pagas). Não é sobre ser 'menor', mas sobre ter menos sistemas que exigem obediência e mais espaço para experimentação.

Fontes

Avalie este artigo:
Compartilhar:
Categoria
CEVIU Design
Publicado
16 de março de 2026
Editoria
CEVIU Design

Quer receber mais sobre CEVIU Design?

Conteúdo curado diariamente, direto no seu e-mail.

Conteúdo curado diariamenteDiversas categoriasCancele quando quiser